Uma campanha que parece simples por fora — um post, um outdoor, uma sacola — é, por dentro, uma sequência de decisões. Foi um trabalho acadêmico que me mostrou, do começo ao fim, como elas se encadeiam.
Aqui vou abrir os bastidores do meu TCC do curso técnico de Publicidade: a criação de uma campanha integrada 360 para a IMARA, uma linha fictícia da Damyller voltada a mulheres maduras de 50+. Quero deixar claro desde já: este é um projeto acadêmico, feito em equipe no curso técnico — a marca IMARA não existe no mercado, ela foi criada por nós dentro do trabalho. O que é totalmente real é o método. Foi a primeira vez que percorri todas as etapas de uma campanha de verdade, na ordem certa, e isso mudou o jeito como eu trabalho até hoje.
Tudo começa no briefing — e o briefing começa na escuta
O erro que eu mais via (e cometi) era pular direto para a arte. O TCC me obrigou a frear. Antes de qualquer cor ou fonte, a gente montou um briefing de verdade: quem é a Damyller, qual lacuna a linha IMARA viria preencher, quem é a mulher de 50+ que queríamos alcançar, contra quem estávamos competindo. Para não chutar, fizemos uma pesquisa com mulheres da nossa cidade — porque público-alvo não é uma suposição bonita num slide, é gente real com gostos, receios e um jeito próprio de se vestir.
Foi aí que aprendi a primeira lição que carrego: um bom briefing é metade da campanha. Quando você entende de verdade quem está do outro lado, as decisões seguintes deixam de ser opinião e passam a ter um porquê.
Estratégia: o mapa antes da viagem
Com o briefing na mão, veio o plano de marketing. Confesso que, no início, ferramentas como SWOT e os 4 Ps me pareciam burocracia de prova. Aplicando de verdade, entendi que são lentes: a SWOT me força a olhar para forças, fraquezas, oportunidades e ameaças sem romantizar o projeto; os 4 Ps amarram produto, preço, praça e promoção para que nada fique solto. Em cima disso desenhamos o planejamento de campanha — qual o problema do consumidor, qual objetivo de comunicação — e um plano de mídia com cronograma e divisão de verba.
A segunda lição veio daqui: estratégia não engessa a criação, ela protege a criação. Quando chega a hora de defender uma ideia, ter o raciocínio estratégico por trás é o que separa “eu achei bonito” de “isso resolve o problema que a gente mapeou”.
Identidade: dar rosto e voz à marca
Só então a parte que eu mais amo entrou em cena: a identidade visual. E mesmo aqui o processo foi conceito antes de estética. O nome IMARA e o símbolo nasceram de uma ideia — os olhos de uma mulher e uma flor, com uma pétala formando o “I”. Construímos o logo numa malha, definimos área de proteção, reduções e usos incorretos. Montamos a paleta em RGB, CMYK e Pantone, porque uma campanha que vai pro digital e pro impresso precisa da mesma cor em telas e em tinta. Escolhemos uma tipografia com três níveis: uma serifa display elegante para títulos, uma sans-serif limpa para o corpo, e a fonte da marca-mãe para honrar a Damyller.
Tudo isso virou um manual de marca — o documento que faz a identidade sobreviver a quem a desenhou. Terceira lição: identidade não é decoração, é sistema. Um bom manual é o que garante que a marca pareça a mesma na mão de qualquer pessoa que for aplicá-la depois.
Aplicações: onde a marca encontra a vida real
A palavra “360” só fez sentido pra mim nesta etapa. Pegamos o sistema visual e o desdobramos em todos os pontos onde a IMARA tocaria a vida da cliente: feed e capa de Instagram e Facebook, telas de e-commerce, sacola e etiqueta da loja, vitrine de primavera, outdoor e até mídia interna de shopping — totem digital, adesivos de portaria, arte para o telão da praça de alimentação. O desafio aqui é de coerência: a mesma marca tem que funcionar num quadradinho de feed e num outdoor visto a metros de distância, sem perder a personalidade em nenhum dos dois.
- Digital: grade de feed, posts e capas pensados para leitura rápida no celular.
- Ponto de venda: sacola, etiqueta e vitrine, onde a marca vira experiência física.
- Mídia exterior e de shopping: outdoor e totens, que precisam comunicar em segundos.
Quarta lição, e talvez a mais prática: uma campanha integrada não é fazer muitas peças, é fazer uma só ideia caber em muitos formatos. Quando a base — briefing, estratégia e identidade — está sólida, as aplicações praticamente se resolvem.
O que eu levei desse TCC
Por ser um trabalho acadêmico, a IMARA nunca foi ao ar — então não tenho números de campanha pra mostrar, e não inventaria nenhum. O que esse projeto me deu é mais durável que uma métrica: o método. Aprendi a respeitar a ordem das etapas, a entender que a parte visual é a ponta de um raciocínio, e a defender cada escolha com um motivo. Hoje, quando recebo um briefing — de cliente, de freela ou de uma marca pessoal — é esse mesmo caminho que eu percorro, só que mais rápido e mais afiado.
No fim, foi um exercício acadêmico que me ensinou a pensar como quem trabalha numa agência: ideia primeiro, craft depois, coerência sempre. E essa é uma campanha que continua rodando — dentro do meu jeito de criar.

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